O que acontece quando começamos a escutar-nos

Muitas pessoas chegam à terapia com uma questão concreta, um problema para resolver, querem perceber porque se sentem ansiosas, desmotivadas, ou porque uma relação não funciona, porque não conseguem avançar numa decisão que parece simples, ou ainda porque parece que estão sempre a viver uma e a mesma história. 

O que acontece, frequentemente, ao longo do tempo em que o processo terapêutico decorre, é algo diferente do que esperavam, a pergunta inicial abre portas para uma série de outras perguntas e o problema concreto revela camadas mais antigas. O que começa como uma consulta sobre o presente, transforma-se numa conversa onde uma história que estava à espera de ser contada, aguardava o interlocutor para ser escutada, acolhida e validada. 

Não nascemos com a competência de nos escutarmos, a maioria de nós aprendeu a funcionar, a gerir, a resolver, a seguir em frente. Aprendemos a responder às exigências externas antes de nos perguntarmos o que sentimos, e essa é, muitas vezes, a origem do mal-estar que nos traz à terapia, não uma falha específica, mas um longo hábito de não nos escutarmos, de estarmos afastados de quem somos, e de correspondermos apenas àquilo que pensamos que os outros querem que sejamos. 

No espaço terapêutico, essa escuta torna-se possível e assume uma forma diferenciada. Não porque o terapeuta tenha respostas, ou conselhos, ou saiba supostamente mais, mas porque há um outro presente, alguém que escuta sem julgamento, que faz as perguntas certas, que suporta cuidadosamente o que é difícil de dizer. E é nessa presença, muitas vezes, que as pessoas encontram uma voz que ainda não tinham dado a si próprias. 

Começar a escutar-nos é, em muitos sentidos, o começo de tudo o resto.

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