O que vemos no outro

Projeção e reconhecimento

Há pessoas que nos irritam profundamente, de forma imediata, quase visceral, sem que consigamos explicar bem porquê. E há pessoas que admiramos com uma intensidade que vai além do que as suas qualidades justificariam. Estes dois movimentos têm mais em comum do que parece. Jung descreveu este mecanismo como projeção, ou seja, a tendência para atribuir ao outro características que são nossas, que pertencem aos nossos ideais não realizados. Quando algo no outro nos provoca uma reação muito intensa, vale a pena perguntar, o que é que isto me está a querer dizer?

A projeção não é uma falha moral, é um mecanismo universal da psique, que acontece antes de qualquer decisão consciente. O problema não é projetar, é não nos apercebermos que o estamos a fazer. Quando confundimos o que está em nós com o que está no outro, perdemos a capacidade de ver o outro como ele realmente é, e de nos vermos a nós próprios com clareza.

Nas relações íntimas, a projeção é particularmente ativa. Parte do que amamos no outro, nos primeiros tempos, é o reflexo das nossas próprias partes desejadas, das nossas idealizações e fantasias. E parte do que nos perturba é o eco das nossas partes negadas. À medida que a relação amadurece, o desafio é aprender a distinguir o que é do outro e o que é nosso. Que ecos são esses que transportamos e ativamente partilhamos?

Reconhecer as nossas projeções não é fácil. Mas é um dos movimentos mais libertadores que o autoconhecimento pode proporcionar, tanto para nós como para as relações que queremos construir.

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